
Imagem: própria
Nos anos 1980, pesquisadores do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) desenvolveram ideias que ajudaram a embasar o Plano Real, implementado em 1994 para pôr fim a anos de inflação descontrolada. Décadas depois, laboratórios da universidade dividiram a bancada com a indústria para desenvolver tecnologias ligadas ao pré-sal, na busca do país pela autossuficiência energética. Uma coisa é economia, outra é engenharia de poços a milhares de metros de profundidade. O que aproxima as duas histórias é o caminho que elas percorreram.
Em ambos os casos, o conhecimento nasceu na pesquisa, encontrou no setor público as condições para sair do papel, ganhou escala com as empresas e terminou onde interessa, na vida das pessoas. Esse percurso tem nome: é o que o modelo da quádrupla hélice descreve ao entender a inovação como resultado da interação entre academia, setor público, empresas e sociedade civil.
Cada hélice entra com o que sabe fazer. A academia é a que navega na incerteza, testando hipóteses que podem não dar em nada e formando as pessoas que vão levar a tecnologia adiante. O setor público aponta direções, define políticas e cria as condições para que a inovação aconteça. As empresas transformam pesquisa em produto e dão escala. A sociedade civil traz o problema real, fiscaliza o que está sendo feito e é quem, no fim, se beneficia.
A parte importante do modelo é o que acontece quando uma das hélices para. Pesquisa que não encontra política pública nem mercado fica na estante. Produto que não responde a uma demanda real não se sustenta. Nenhuma hélice gira sozinha, e é por isso que iniciativas capazes de sentar esses quatro atores à mesma mesa, como a Rede Blockchain Brasil (RBB), pesam tanto no desenvolvimento da blockchain no Brasil.
Um problema que não se resolve sozinho
A PUC-Rio é uma das instituições que pensam a tecnologia a partir desse modelo, e chegou a ele pela prática. Em projetos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) de setores que não conversam entre si, a universidade esbarrava sempre na mesma pergunta: como garantir integridade, rastreabilidade e confiança em registros compartilhados por várias organizações, sem depender de um intermediário central?

A blockchain aparece como uma resposta possível. E, diante de uma tecnologia ainda em formação, a leitura da universidade é que cabe a uma instituição de ponta fazer o trabalho menos glamouroso: avaliar o risco tecnológico, medir o potencial de resultado e formar as capacidades de que a indústria vai precisar quando a tecnologia amadurecer. O plano para os próximos anos é continuar a desenvolver o papel de integração entre a academia e a indústria, promovendo o avanço das soluções do ambiente de pesquisa para potencializar suas aplicações na indústria e no setor público, formando gente, produzindo conhecimento e cumprindo com o seu papel com a sociedade.
Porém, esse ambiente de exploração e incertezas exige recursos para testar e aplicar as soluções em ambiente controlado antes de escalar para mercado. Principalmente quando a indústria busca por soluções de impacto para a sociedade, a RBB emerge como potencial recurso ao oferecer uma infraestrutura público-permissionada, uma governança unificada e instituições públicas relevantes em uma mesma rede. A PUC-Rio opera na RBB nós dos tipos writer, por onde as aplicações registram transações, e observer boot, que ajudam novos participantes a se conectar e auditar os dados armazenados e distribuídos. Com isso, a RBB contribui para os testes e sustentação de uma infraestrutura, preparando o terreno para validação, em condições reais, aquilo que é desenvolvido no ambiente de P&D.
Cinco elementos, dois tempos
Um modelo amplamente conhecido para entender esse grau de maturidade é o referencial da consultoria Gartner, que descreve a blockchain a partir de cinco elementos: distribuição, criptografia, imutabilidade, tokenização e descentralização. A combinação desses elementos ajuda a diferenciar soluções inspiradas em blockchain, que incorporam apenas parte deles, de arquiteturas mais completas, que reúnem os cinco e ampliam o potencial de criação e troca de valor em redes distribuídas.
Os três primeiros são os que aparecem com mais frequência nas soluções atuais. Distribuição, criptografia e imutabilidade garantem que o registro esteja compartilhado entre os participantes, protegido e preservado contra alterações unilaterais. É daí que vêm aplicações já mais consolidadas, como registros verificáveis, rastreabilidade de ativos e cadeias produtivas e certificação de evidências, trazendo mais segurança, transparência e confiança para operações entre múltiplas organizações. Tokenização e descentralização estão em uma etapa mais avançada dessa evolução, sendo elementos que ampliam o potencial da blockchain para representar e negociar novas formas de valor e para estruturar redes governadas por consenso, sem depender de um intermediário central.
O que o Brasil tem em mãos
O país reúne escala de mercado, maturidade regulatória e disposição para experimentar, uma combinação que permite mais do que acompanhar o que se faz lá fora. Já foi assim em outras ocasiões. Em blockchain, o caminho passa por mais projetos estruturantes que coloquem academia, setor público, empresas e sociedade civil no mesmo espaço. Projetos como a RBB podem criar condições para que pesquisas, demandas públicas e aplicações desenvolvidas por empresas avancem de forma articulada. É assim que as quatro hélices giram juntas, como já giraram antes.
Este artigo foi produzido, em parceria, pelo Observatório Nacional de Blockchain e pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).