
Os espaços entre a criação, a produção e o consumo de qualquer tecnologia exigem olhares críticos que revelem desequilíbrios e constatem estabilizações. Mesmo com desafios como sustentabilidade, desempenho, armazenamento, segurança e privacidade, a tecnologia blockchain está consolidada. Sendo assim, é hora de unir esforços para ampliar as aplicações e encabeçar uma regulação que dê suporte ao uso em diversos setores da economia brasileira.
Esse posicionamento sobre a consolidação da tecnologia é de quem faz parte de pedras fundamentais da Pesquisa & Desenvolvimento de blockchain no Brasil. Em entrevista ao Observatório Nacional de Blockchain, o professor Leobino Sampaio, do Departamento de Ciências da Computação, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), afirmou que, atualmente, precisamos de aplicações chegando, de fato, à sociedade. Leobino resgatou memórias, que se confundem com a história do campo no país. Em especial, reiterou a importância da professora Fabíola Greve, que deixou sua assinatura nos avanços da tecnologia.
Em 2018, os dois publicaram, junto com outros pesquisadores, o capítulo “Blockchain e a revolução do consenso sob demanda”, um ponto de referência para trabalhos na área. A repercussão deste texto, por sua vez, impulsionou a criação do Comitê Técnico de Prospecção Tecnológica em Blockchain (CT-Blockchain), fomentado pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) entre 2020 e 2023, e posteriormente, do Workshop em Blockchain (WBlockchain). Esse evento ocorre, anualmente, dentro do Simpósio Brasileiro de Redes de Computadores e Sistemas Distribuídos (SBRC).
Toda essa trajetória faz o pesquisador afirmar que os desafios tecnológicos e científicos aparecem com menor protagonismo hoje, no cenário de P&D, quando comparados às buscas por aplicações.
“Se você perguntar aos membros da comunidade de Sistemas Distribuídos, vão dizer que já sabiam desta consolidação. Afinal, eles já conheciam tecnologias que estão por trás da capa blockchain. Portanto, quando a gente chega nesse estágio, é hora de aplicar”.
Descentralização para disrupção
Uma ideia fundamental “por trás da capa blockchain” é a descentralização da rede, tema que está na ordem do dia quando falamos de Internet. Descentralizar é, por exemplo, questionar o atual funcionamento, muito concentrado nas grandes plataformas pertencentes a poucas empresas.
“A internet foi concebida para ser uma rede descentralizada. Mas, por conta da computação em nuvem, do uso e popularização dos smartphones, acabou se concentrando nas plataformas das Big Techs”, reflete o professor Leobino.
O pesquisador está envolvido em grupos de trabalho que consideram a Tecnologia de Registro Distribuído (DLT, do inglês Distributed Ledger Technology) como verdadeiro caminho para a disrupção. E, claro, se incluem nesse contexto a tecnologia blockchain e suas aplicações, além da arquitetura de Rede de Dados Nomeados (NDN, do inglês, Named Data Networking). Em todos esses casos, estamos falando da busca por otimizar a forma como dados são armazenados, acessados e gerenciados em redes digitais, com mais flexibilidade em relação ao controle.
Regulação para ampliação
Ao falar em descentralização e incentivar a retirada de instituições intermediárias, esbarramos na necessidade de leis e normas que garantam a fiscalização e a manutenção dos interesses públicos. Cartões de vacina verificáveis, rastreamento de transações (como venda de veículos ou transações governamentais), diplomas e reconhecimento facial são exemplos de aplicações que capturam dados sensíveis e precisam se ancorar em marcos regulatórios.
De acordo com o professor Leobino, a sociedade só não está se beneficiando tanto da tecnologia blockchain porque ainda falta regulação.
“Quando eu falo na tokenização de crédito de carbono, quem regula? Esse é nosso ‘calcanhar de Aquiles’. Quem regula esta moeda quando um produtor rural quiser vender o ativo? Quem regula este mercado? Portanto, entendo que falta a parte do governo”.
Aos olhos do pesquisador, o desenvolvimento e a ampliação de blockchain não está estrangulado pela tecnologia, mas sim pela falta de regulação.
Leobino citou esse exemplo de tokenização no contexto do GT-CarbonID, equipe fomentada pelo Projeto Ilíada, que é realizado pela RNP e pelo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPQD), sob coordenação da Softex, com o objetivo de fortalecer o ecossistema nacional de blockchain. O GT-CarbonID, coordenado por Leobino, cria uma plataforma descentralizada que apoia o gerenciamento do ciclo de vida dos créditos carbono do mercado voluntário por meio de Identidade Digitais Descentralizadas (IDDs).
O crédito de carbono é um mecanismo de mercado criado para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Empresas e indivíduos podem compensar suas emissões adquirindo créditos certificados por padrões internacionais. Portanto, a gestão dos créditos pode beneficiar produtores, compradores, certificadores, auditores, entre outros “nós” do ecossistema.
A plataforma CarbonID vai garantir o gerenciamento do ciclo de vida dos créditos de carbono e IDDs para assegurar autenticidade e rastreabilidade dos créditos. Um dos focos do GT é levar a tokenização de créditos de carbono a pequenos produtores, quilombolas e comunidades indígenas, que dependem da preservação ambiental para sobreviver.
“Precisamos de um modelo de negócio em que seja interessante para terceiros manter florestas em pé. No caso do CarbonID, enxergo grande potencial de atuação. A gente não está focado somente na tokenização, o projeto envolve também IDD”.
A tecnologia IDD usada no contexto do CarbonID foi desenvolvida, anteriormente, no GT-ChainID (2020 e 2021), sob liderança da professora Fabíola Greve.
Sobre o pesquisador
Doutor em ciência da computação pela Universidade Federal de Pernambuco. Em 2020, realizou estágio pós-doutoral como professor visitante no Internet Research Lab (IRL) do departamento de Ciência da Computação na University of California, Los Angeles (UCLA), sob a supervisão da Profa. Lixia Zhang. Com mais de 25 anos de experiência em pesquisa e ensino em cursos de graduação, atualmente é professor Associado IV da UFBA, membro permanente do programa de Pós-graduação em Ciência da Computação (PGCOMP) do Instituto de Computação da UFBA e líder do grupo de pesquisa INSERT – Infraestrutura e Sistemas para Redes e Telecom. É vice-diretor do conselho técnico científico do Laboratório Nacional de Redes de Computadores (LARC), Pesquisador Bolsista de Produtividade em Pesquisa (PQ) do CNPq, do Laboratório de Pesquisa Básica da Força Aérea dos EUA (Air Force Office of Scientific Research – AFOSR) e Coordenador de Projetos de Pesquisa e Desenvolvimento da RNP.