Blockchain na cadeia de suprimentos: promessa, limites e aprendizados

supply chain
Imagem: Bernd Dittrich / Unsplash

A cadeia de suprimentos, ou supply chain, é o conjunto de etapas e processos que envolvem desde a obtenção da matéria-prima até a entrega do produto final ao consumidor. Ela engloba diferentes atores, como fornecedores, fabricantes, distribuidores e varejistas, e demanda coordenação para garantir eficiência, qualidade e transparência em toda a trajetória dos bens. 

Porém, existe uma questão a ser pensada: entre a origem da matéria-prima e o consumidor final, há inúmeros elos que nem sempre se comunicam ou compartilham informações. Garantir rastreabilidade, transparência e confiança entre os atores é um dos maiores desafios da logística atual e continua sendo um gargalo mesmo com toda a digitalização dos últimos anos.

O Observatório Nacional de Blockchain conversou com Elias Ribeiro da Silva, professor associado de Digitalização de Operações e Cadeias de Suprimento no Departamento de Tecnologia e Inovação na Universidade do Sul da Dinamarca. A visão dele é clara: não basta implementar sistemas sofisticados, é preciso que todos os envolvidos queiram e possam participar.

“Se a rede não é de fato distribuída, a tecnologia perde sentido. O problema não é técnico, é organizacional.”

O caso da blockchain ilustra bem esse dilema. A tecnologia foi celebrada como uma solução para aumentar a confiança em cadeias fragmentadas, como no café, no minério ou no agronegócio. Mas, ainda que promissoras, muitas dessas iniciativas enfrentam desafios para se firmar. Adoção em larga escala exige alinhamento, investimento e, muitas vezes, regulação. 

Por isso, Elias é cético quanto à vasta aplicabilidade da blockchain em cadeias produtivas. Não por desacreditar na tecnologia, mas por ter vivenciado na prática suas limitações. “99% das aplicações que a gente viu não faziam o menor sentido.”

Isso porque, em teoria, a blockchain oferece rastreabilidade ponta a ponta para produtos diversos. Mas, na prática, a maioria dos agentes envolvidos, especialmente os pequenos, não tem estrutura, mão de obra qualificada e nem incentivo para adotar a tecnologia. 

Além disso, há um paradoxo que precisa ser considerado: as grandes empresas falam sobre transparência, mas dificilmente estão dispostas a compartilhar seus próprios dados, principalmente se concorrentes diretos estiverem envolvidos. Por isso, sem adesão em massa, a rede distribuída perde sentido.

“Se a adoção não vem de forma ampla e coordenada, a blockchain simplesmente não funciona. O custo da implementação é alto demais para algo que talvez não traga retorno.”

Portanto, Elias acredita que a tecnologia pode gerar valor em nichos muito específicos dentro da cadeia de suprimentos, quando por exemplo:


  • O processo envolve múltiplos atores e alta complexidade, como no ciclo de vida de baterias elétricas, em que produção, uso, remanufatura e descarte precisam ser rastreados por diferentes empresas, cada uma com necessidades específicas de informação. Enquanto as empresas que fazem a reciclagem precisam saber a composição química da bateria, remanufaturadores querem entender o quanto de vida útil ainda resta. O desafio aqui é garantir a confiabilidade dos dados em cada etapa, mesmo quando há baixa confiança entre os atores;
  • Existe necessidade real de segurança, confidencialidade dos dados e rastreabilidade, especialmente em contextos de alto investimento, como o desenvolvimento de protótipos industriais em impressoras 3D compartilhadas, onde múltiplas empresas acessam equipamentos caríssimos (que podem ultrapassar 1 milhão de euros) e precisam garantir que informações técnicas sensíveis não sejam acessadas ou alteradas por terceiros;
  • Há risco jurídico, sanitário ou ambiental elevado, como no caso de vacinas que precisam ser mantidas sob temperaturas extremas durante todo o transporte ou, ainda, como no ciclo de vida dos pneus no Brasil, em que a legislação exige que, para cada pneu produzido, a empresa comprove a reciclagem de um equivalente;
  • Ou quando é impossível garantir a integridade dos dados por outros meios, devido à natureza distribuída ou sensível da informação.

“Para rastrear vacinas transportadas a -70°C, faz sentido. Para frutas no supermercado, provavelmente não.”

Segundo o pesquisador, a regulação pode ser o único motor viável para a adoção em larga escala. Setores como o de resíduos perigosos ou matérias-primas críticas, por exemplo, poderiam se beneficiar de um sistema descentralizado para auditoria de processos.

“Quanto maior a criticidade, mais se justifica o custo de um sistema baseado em blockchain.”

Da teoria à prática

A maturidade tecnológica vem quando olhamos para os reais desafios das cadeias produtivas. Em vez de partir da tecnologia em busca de um problema, é preciso partir do problema em busca da melhor solução. No caso da blockchain, isso significa reconhecer que seu potencial está longe de ser universal.

A tecnologia é transformadora quando há contexto, necessidade concreta e uma rede de atores comprometida em usá-la de forma coordenada. De acordo com Elias, isso raramente acontece de forma espontânea. Em suas experiências com a indústria, o pesquisador observou que a maioria das empresas ainda resiste ao compartilhamento de dados e dificilmente investe em soluções que não tragam retorno direto, a não ser que haja pressão regulatória ou uma mudança estrutural no modelo de negócio.

Por isso, ele defende que o valor da blockchain emerge principalmente em situações críticas, com múltiplos riscos envolvidos e onde os dados precisam ser confiáveis entre diferentes partes que não confiam umas nas outras. Nesses contextos, o custo da não colaboração é maior que o custo da adoção e a tecnologia passa a fazer sentido.

Sobre o entrevistado 

Elias Ribeiro da Silva é Professor Associado do Departamento de Tecnologia e Inovação da Universidade SDU do Sul da Dinamarca. Sua pesquisa atual explora a digitalização de sistemas de produção e cadeias de suprimentos. Possui doutorado em Engenharia de Produção e Sistemas e ampla experiência nos setores automotivo e de automação industrial. Atualmente, é membro do conselho da Rede Internacional de Supply Chain 4.0.