
Embora o volume de dados cresça exponencialmente, a falta de confiança faz com que, em vez de fluir, a informação fique retida em silos. Hospitais repetem exames ao invés de usar o histórico clínico do paciente, máquinas falham por falta de colaboração de fabricantes e companhias aéreas ocultam informações estratégicas com medo de perder vantagem competitiva, para mencionar apenas alguns exemplos. O resultado? Custos mais altos, processos menos eficientes e riscos reais para a sociedade.
Marcela Tuler de Oliveira, atualmente professora da Universidade Técnica de Delft, na Holanda, estuda o que pode ser a solução para esses casos: blockchain e smart contracts (ou contratos inteligentes) para automatizar confiança e permitir colaboração segura entre instituições que não confiam plenamente umas nas outras. Sua trajetória na temática começou no mestrado na UFF, em Niterói (RJ), e continuou no doutorado na Holanda, durante um projeto de telemedicina, quando percebeu o desafio de proteger dados sensíveis, garantindo acesso apenas a quem realmente precisa e enquanto precisa.
Na ocasião, Marcela desenvolveu um modelo de controle de acesso baseado em múltiplos atributos (Attribute-Based Access Control – ABAC) dentro de smart contracts, o que chamou de Smart Access, tornando totalmente transparente e auditável como os dados são acessados. Na prática, isso significa que um neurologista só tem acesso aos dados do paciente se estiver no hospital certo, no turno certo e designado para aquele atendimento. Quando o tratamento termina, ele perde o acesso automaticamente. Tudo acontece em menos de um segundo, com registros imutáveis e verificáveis, seguindo leis como a LGPD e o GDPR. “O smart access substitui componentes de administração e decisão de política de acesso, garantindo que toda a parte da decisão seja descentralizada e acordada entre as partes, registrada na blockchain de maneira transparente. Isso evita o ponto de falha que existia no componente centralizado de controle de acesso dentro da cloud”, explica a professora.
A solução de controle de acesso é agnóstica e aplicável a diversos setores. Hoje, Marcela trabalha em projetos europeus que usam blockchain e smart contracts para permitir colaboração segura em setores para além da saúde, como manufatura, mobilidade, gestão de crises (como prevenção de enchentes), cibersegurança e segurança pública, que inclui alerta de incêndios, no âmbito do projeto ExtremeXP, financiado pelo Horizon Europe.
O árbitro da inovação
Em vários casos de uso, a blockchain atua como um árbitro, permitindo que algoritmos de previsão de falhas aprendam com os dados de todas as companhias sem que uma precise expor sua estratégia comercial para a outra. “As fábricas precisam colaborar, mas não querem que o concorrente use seus dados para descobrir quanto produziram ou prever quando terão falhas. Por isso, trabalhamos com um modelo em que uma instituição de pesquisa recebe os dados apenas para treinar o algoritmo e depois devolve só o resultado, nunca os dados brutos. A blockchain entra exatamente para garantir esse controle de acesso e assegurar que ninguém usa a informação fora do propósito definido”, afirma.
Em um dos exemplos citados pela pesquisadora, dados de manutenção e sensores de aeronaves compartilhados por meio de digital twins (ou gêmeos digitais) permitiram identificar antecipadamente um risco estrutural que poderia causar um desastre aéreo. A análise do gêmeo digital de uma aeronave revelou um padrão de erosão em componentes específicos do sistema de ventilação, associado a procedimentos adotados pelos pilotos durante pousos e decolagens. Sem esse modelo preditivo e sem a rastreabilidade transparente dos dados, a falha só teria sido descoberta depois de um evento grave. “Um pesquisador usando digital twins evitou a queda de aeronaves ao identificar risco estrutural semelhante ao do acidente na Malásia. Mas isso não vira manchete, porque tragédias evitadas não aparecem no noticiário”, comentou.
Ao utilizar blockchain para registrar de forma auditável o uso e a finalidade dos dados (e limitar o acesso ao que é estritamente necessário), companhias aéreas podem compartilhar informações críticas sem abrir seus segredos comerciais. Assim, em vez de competir pela posse dos dados, passam a competir pela capacidade de analisá-los. É uma virada de paradigma que só se torna viável quando existe confiança programável, como no caso do smart access. Mais do que uma aplicação tecnológica, trata-se de uma mudança que permite compartilhar sem expor, colaborar sem abrir mão do controle e criar transparência verificável onde hoje existe opacidade estratégica.
Maturidade: do hype à infraestrutura invisível
Projetos financiados pelo programa Horizon Europe, como os que Marcela integra, vêm explorando essa abordagem em diversos setores críticos, desenvolvendo modelos de governança baseados em smart contracts para permitir que múltiplas organizações contribuam com dados sem renunciar à soberania sobre eles.
Olhando para o futuro, a pesquisadora ressalta que a tecnologia caminha para a convergência em redes permissionadas e consórcios, fortemente integrados a iniciativas de identidade digital soberana e Data Spaces. Na Europa, regulamentações como o eIDAS 2.0 já preparam o terreno para um novo ecossistema de interoperabilidade, onde a identidade verificável serve como chave mestra para esse trânsito de dados. Nesse cenário, a blockchain deixa de ser o “produto” final para se tornar a infraestrutura subjacente, invisível e essencial, que garante a veracidade das interações em larga escala.
Contudo, a pesquisadora faz um alerta crucial para gestores e inovadores: a tecnologia não é uma solução mágica. Ela deve ser aplicada estritamente onde há problemas reais de governança e falta de confiança, e não por modismo. A maturidade do setor depende dessa distinção. “Talvez por conta do hype passado, a palavra ‘blockchain’ ainda gere resistência. Por isso, muitos pesquisadores e consórcios preferem hoje termos como Smart Contracts ou DLT (Distributed Ledger Technology) para descrever esses sistemas distribuídos que automatizam processos e garantem imutabilidade, focando na utilidade técnica em vez do ruído de marketing”, finaliza.
Sobre a pesquisadora
Dr. ir. Marcela Tuler de Oliveira é professora assistente em Sistemas de Dados Confiáveis na TU Delft (Technology, Policy and Management), no departamento de Engineering Systems and Services, seção de ICT. Ela é doutoranda na Amsterdam University Medical Centre (Universidade de Amsterdã), com pesquisa em criptografia de dados e modelagem de controle de acesso para o compartilhamento seguro de dados em saúde e pesquisa médica, possui mestrado em Engenharia Elétrica e de Telecomunicações pela Universidade Federal Fluminense, onde também se graduou, além de ter realizado intercâmbio acadêmico de um ano na University of Florida, USA. Sua pesquisa concentra-se no compartilhamento seguro de dados entre organizações, incluindo controle de acesso e uso, rastreabilidade, responsabilização e tomada de decisão orientada por dados, com preservação da privacidade, atuando em setores como saúde, aviação, finanças e cidades inteligentes.