
A oferta de recursos digitais, movida pelas necessidades da sociedade contemporânea, transformam radicalmente a forma como disseminadores tradicionais (universidades, editoras, centros de pesquisa, bibliotecas, museus) geram e distribuem a informação científica. Documentos que circulam digitalmente estão expostos a efemeridades: links que desaparecem ou “quebram”, alteração de localização de objetos digitais e transferência de propriedade.
É por isso que os olhos da comunidade científica e dos setores interessados em manter a ciência em evidência se voltam para tecnologias de identificação persistente. Elas são capazes de distinguir objetos, pessoas, organizações ou outros recursos digitais, mesmo quando a localização na Web muda.
Identificadores Persistentes (PIDs) bem estabelecidos constituem uma base confiável para a ciência aberta, pois ajudam a garantir que as entidades às quais se referem sejam localizáveis, acessíveis, avaliáveis, inteligíveis, utilizáveis e interoperáveis. Tradicionalmente, a identificação dos objetos digitais científicos – como o Digital Object Identifier (DOI) – depende de agências centralizadas, o que envolve custos elevados e pouca autonomia nacional.
É neste ponto que a blockchain pode contribuir para o desenvolvimento de uma infraestrutura distribuída e auditável, porque as características de descentralização, imutabilidade e rastreabilidade transparente abrem a possibilidade de construção de sistemas de identificação persistente de baixo custo e governança comunitária.

dARK: o identificador persistente brasileiro
O Brasil tem uma proposta alternativa baseada em blockchain, o dARK (Decentralized Archival Resource Key), um serviço descentralizado e aberto, criado pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict). O instituto está envolvido com desenvolvimento de tecnologias para a construção de infraestrutura aberta, confiável e sustentável para a integração, certificação e disseminação da informação científica brasileira.
O dARK é o “CPF dos objetos digitais”, uma aplicação descentralizada do padrão ARK (do inglês Archival Resource Key) baseada em nós de blockchain institucionais. Neste caso, a propriedade e o armazenamento de dados não são controlados por uma única organização, mas por todos os participantes de uma rede – a Rede dARK. O sistema descentralizado permite a atribuição e gestão de identificadores com maior equidade e acessibilidade para todas as instituições de pesquisa, independentemente dos recursos financeiros.
Portanto, ao oferecer um identificador persistente gratuito, o dARK tem o potencial de transformar a maneira como a produção científica brasileira é identificada, acessada e avaliada. Além disso, fortalece a produção e a colaboração acadêmica na América Latina, ajudando as instituições desta e outras regiões do Sul Global a superar as barreiras em relação à circulação da ciência produzida. O objetivo é transformar o dARK em um serviço amplamente adotado pela comunidade brasileira, por meio do IBICT, e latino-americana, com apoio da rede LA Referencia.
O Ibict integra a Rede Blockchain Brasil (RBB) que admite apenas instituições conhecidas e confiáveis como validadoras de blocos, mantendo os dados abertos ao público. Esse modelo de confiança é exatamente o que uma infraestrutura pública de dados científicos exige: participantes responsabilizáveis e serviço transparente para toda a sociedade. Operacionalmente, o Ibict já mantém um nó em ambiente de laboratório e de produção na RBB, com capacidade de validar transações. Em um futuro próximo, isso permitirá que aplicações como o dARK passem a ser serviços reais sobre infraestrutura nacional confiável.
Por que uma infraestrutura de identificação persistente tem um impacto tão positivo?
1) Universalidade: praticamente qualquer dado necessita de identificação persistente e o modelo do dARK é replicável para outras áreas, não somente a gestão da informação científica;
2) Mitigação do risco de centralização: sistemas tradicionais de identificadores persistentes podem falhar por descontinuidade institucional ou mudança de política, no entanto, a ancoragem em blockchain garante resiliência de longo prazo ao identificador;
3) Redução do custo público: o dARK é gratuito e de código aberto, evitando que recursos públicos fiquem permanentemente dependentes de serviços proprietários de identificação. Isso é especialmente relevante para instituições de pesquisa com orçamento limitado e que produzem grande volume de dados.
Este artigo foi produzido, em parceria, pelo Observatório Nacional de Blockchain e Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict)